domingo, 26 de setembro de 2010

Homossexualidade ≠ Transexualidade

Há algum tempo atrás, neste “post”, referi que na minha opinião o tema homossexualidade não deveria ser tão emparelhado com o tema transexualidade como é. Aliás a própria sigla LGBT engloba já estes dois conceitos que são tão distintos como água e azeite. Não que me sinta de qualquer modo incomodado com a situação mas acredito que contribui para a criação de mitos e confusões na mente de pessoas menos instruídas. Há ainda não muito tempo, enquanto lia um blog ocasional, deparei-me com um texto de um português revoltado pelo facto da o estado financiar operações de mudança de sexo rematando no final do texto com um: “afinal homossexualidade é doença ou não??”

Eu respondo desde já, nunca foi e deixou de ser considerada como tal pela comunidade científica em 1975.

De qualquer modo, a homossexualidade define-se como uma atracção física e/ou emocional e/ou sexual por indivíduos do mesmo sexo e/ou género. (ponto final parágrafo)

A transexualidade é algo muito mais raro e complexo que está habitualmente por trás de uma Perturbação da Identidade de Género. Mas antes de nos embrenharmos nesta perturbação é importante definir dois conceitos chave: sexo e género.

Sexo: No ser humano, é um termo usado para nos referirmos à diferença física e biológica entre homens e mulheres. Tem em conta as diferenças na anatomia e dá importância primordial à genitália e ao aparelho reprodutor para distinguirmos pessoas do sexo feminino de pessoas do sexo masculino.

Género: É um conceito mais socialmente construído e engloba todos os papéis socialmente atribuídos a uma pessoa baseando-se no seu sexo aparente. É o que nos permite distinguir homens de mulheres mesmo sem vermos o seu sexo. Engloba aparência, forma de vestir, postura e forma de estar na sociedade, gostos, comportamentos e mesmo forma de expressar e vivenciar os sentimentos.

Tendo isto em conta, podemos recorrer ao DSM-IV-TR (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais) para definir a perturbação da identidade de género. Salvaguardo no entanto, que se comenta a possibilidade de se retirar esta perturbação quando for editado o DSM-V, deixando portanto de ser considerada uma perturbação mental.

Entretanto e muito resumidamente o DSM define esta perturbação como: “…a existência evidente de uma identificação de género cruzada intensa e persistente, que consiste no desejo de ser ou na insistência de que se é do outro sexo.” “Tem de existir também evidência de um desconforto persistente acerca do sexo que lhe é atribuído ou sentir-se inapropriado no papel de género desse sexo.”

Ou seja, são indivíduos que interiormente sentem que o sexo com que nasceram não é o correcto. É então necessário ter em conta que o “ser homem” ou o “ser mulher” ultrapassa muito mais que o sexo. Como tal e exemplificando, mesmo antes de qualquer operação, um individuo do sexo feminino com esta perturbação é considerado Um Homem porque interiormente é assim que se sente e isso ultrapassa a importância física e genital.

Importa agora referir que a orientação sexual não tem nenhuma importância neste assunto. Claro que como a maioria da população, estes indivíduos vão sentir-se atraídos por pessoas do género oposto. Ou seja, um indivíduo do sexo masculino com esta perturbação, como a maioria das mulheres, tem uma grande probabilidade de se sentir atraído por homens. Mas isto não o faz ser homossexual, na verdade é considerado um heterossexual porque na orientação sexual o que conta é o seu género e não o seu sexo.

Por outro lado, para verificarmos como a orientação sexual em nada influencia esta situação, existem casos de pessoas com esta perturbação e que são na verdade homossexuais. Confuso não é? Mas eu explico, é o caso por exemplo de um indivíduo do sexo masculino com esta perturbação mas que se sente atraído por mulheres. Ou seja no fundo “ele” é uma mulher que se sente atraído por mulheres e como tal é considerado/a, uma lésbica.

Esta é uma perturbação grave e para vermos isso basta que cada um de nós se imagine de repente preso no corpo de uma pessoa do outro sexo e a ter de se comportar como tal, certamente que nos iríamos sentir completamente errados…
Infelizmente a melhor forma de estas pessoas serem ajudadas é mesmo pela mudança de sexo depois de sujeita a inúmeros exames psicológicos. É uma situação extremamente frustrante para estes indivíduos, pela vergonha, pelo processo longo e difícil que têm de percorrer, pela critica a que estão sujeitos socialmente, pela falta de apoio e compreensão da família, pela dificuldade posterior na questão legal da documentação, etc. Tudo isto em cima do facto de simplesmente sentirem que vivem num corpo que não é o seu e que os transtorna quotidianamente. Existem inúmeros casos de pessoas nesta situação que vivenciaram depressões profundas, que se automutilaram, que se castraram e mesmo que se suicidaram…

6 comentários:

Theo.. disse...

Meu Deus que tema complicado para um Domingo de manhã, tive que ler 3 vezes, não por estar mal escrito mas é que o tema fez um embrulho no meu cérebro e não ia nem pra frente nem pra trás. Não consigo imaginar o sofrimento dessas pessoas visto que eu sendo um homem, gosto de homens e não quero mudar nada no meu corpo já é muito complicado para eles deve ser ainda pior a começar por terem que se encontrar dentro do seu próprio corpo ainda têm que encontrar ql género é que gostam, complicado não eh? Pois esse tema é um dos mais complicados mesmo, e vocês psicólogos devem ter um trabalhão para entender e ajudar essas pessoas, mas tenho a certeza que fazem um excelente trabalho :)

So disse...

lool adorei o inicio do comentario do Theo. estou pasma pra minha vida... andaste a vasculhar o dsm e os trabalhos do ano passado, sim sinhor =) realmente considero importante que se façam distinções e que se tente explicar as pessoas o como são as coisas, eu pessoalmente não vejo qual a dificuldade em distinguir esses conceitos. penso que o mais importante desta questão eh o tipo de sentimentos que traz que em ambos os casos podem ser bons, ou pelo contrario, devastadores. espero no entanto que a sociedade evolua no sentido de ajudar as pessoas a se sentirem bem com elas próprias e não o oposto.

Speedy disse...

Não me imagino na pele destas pessoas. A confusão em que se devem encontrar e tantos preconceitos que têm de combater. E quando pensamos que a nossa vida é complicada...
Well putted Mr. Psychologist

jose disse...

Há uns tempos atrás a MTV transmitiu 2 casos de transexualidade masculina e feminina e acompanharam o processo de transformação destas duas pessoas, e foi incrivel e confortante ver o quanto a sua auto-estima e confiança deles se elevaram depois de tantos anos encarcerados em sofrimento!
Blog interessante, boa sorte p/ o mestrado!

Teté disse...

Acho que no geral entendi, embora esse final seja realmente um bocado confuso! Julgava que era coisa mais simples, tipo nascer destro ou esquerdino...

No meio disso tudo, fiquei sem perceber o que era um bissexual, mas pronto, outro dia explicas (ou não)!

Beijocas!

paulofski disse...

É de facto um tema delicado, bastante controverso, e que faz todo o sentido.

Serve este texto de reflexão e um excelente esclarecimento.